Como a Argumentação Pode Ajudar Crianças Surdas a Aprender Melhor
Imagine que você é uma criança e está aprendendo a falar e entender o mundo ao seu redor. Para a maioria das crianças, esse processo começa ouvindo os sons e palavras dos adultos. Mas, e se você não pudesse ouvir esses filhos? É assim que muitas crianças começam sua jornada de aprendizado.
Para essas crianças, a linguagem é adquirida de uma forma diferente, principalmente por meio da visão, usando a Língua Brasileira de Sinais (Libras). No entanto, muitas delas enfrentam um grande desafio: a maioria das crianças surdas no Brasil nasce em famílias onde os pais são ouvintes e não sabem Libras. Isso pode atrasar o desenvolvimento da linguagem, o que torna o aprendizado mais difícil.
O que é uma argumentação e por que ela é importante?
Agora, imagine que você está em uma sala de aula e alguém faz uma pergunta como: "Por que devemos cuidar do meio ambiente?" Você pode ter várias respostas, mas a ideia principal é que você argumente, ou seja, defenda seu ponto de vista e ouça o que os outros têm a dizer.
Argumentar é isso: defender uma ideia, explicar por que você pensa de uma certa maneira, e considerar outras opiniões. Esse processo é superimportante porque nos ajuda a pensar melhor, organizar nossas ideias e aprender coisas novas.
Para as crianças surdas, a argumentação pode ser uma ferramenta poderosa. Quando eles aprendem a argumentar, não estão apenas aprendendo a se comunicar melhor, mas também a desenvolver habilidades importantes, como o pensamento crítico e a capacidade de entender diferentes perspectivas.
Como a argumentação é usada no ensino das crianças surdas?
Um estudo recente mostrou como a argumentação pode ser usada para ajudar crianças surdas a aprender melhor em escolas bilíngues, onde elas estudam tanto Libras quanto o Português escrito.
Neste estudo, os pesquisadores organizaram oficinas lúdicas, como contação de histórias e atividades de desenho, em três escolas bilíngues. Nesses escritórios, as crianças, que tinham entre 6 e 14 anos, foram incentivadas a participar de investigação, expressar suas opiniões e defender seus pontos de vista.
Por exemplo, durante a contação de uma história, as crianças discutiram sobre o que poderia ter acontecido com um personagem depois do fim da narrativa. Cada criança tinha a chance de dizer o que perdeu, e elas precisavam argumentar para convencer os colegas. Esse tipo de atividade não só ajudava a melhorar a comunicação, mas também fortalecia o entendimento e o aprendizado.
Por que isso funciona tão bem?
A argumentação é um exercício que envolve palavras, gestos, expressões faciais e o uso do corpo – tudo isso é muito importante na Libras. Quando uma criança surda argumenta, ela precisa pensar sobre o que o outro disse, refletir e responder de forma consistente. Esse processo faz com que ela use e obtenha várias habilidades ao mesmo tempo, o que é fundamental para o seu crescimento intelectual.
Além disso, ao argumentar, as crianças aprendem a ver as coisas por diferentes ângulos. Eles descobriram que existem várias maneiras de olhar para uma situação e que nem sempre há uma única resposta certa. Isso ajuda a se tornarem mais abertos e reflexivos.
O que podemos aprender com isso?
Este estudo nos mostra que, com as ferramentas certas, como a argumentação, podemos ajudar as crianças a aprenderem de forma mais completa e significativa. Ao oferecer um espaço onde elas podem suas ideias e ouvir os outros, as escolas bilíngues estão criando um ambiente de aprendizagem muito mais rico e inclusivo.
A argumentação, portanto, não é sobre vencer debates; é sobre aprender, crescer e se comunicar melhor com o mundo. E isso é algo que todos nós, ouvintes ou não, podemos levar para a vida.
Maria Fantiny
Referência:
SILVA, Ana Clara Jardim da; VIEIRA, Alessandra Jacqueline. O papel da argumentação na aquisição da linguagem e no processo de aprendizagem de crianças surdas em escolas bilíngues. Cadernos de Linguística , v. 2, pág. e763, 2024. DOI: 10.25189/2675-4916.2024.v5.n2.id763 . Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/763 . Acesso em: 31 ago 2024.


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