A HORA DA ESTRELA: UM OLHAR PROFUNDO SOBRE A MARGINALIDADE E A CONDIÇÃO HUMANA EM CLARICE LISPECTOR
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LISPECTOR,
Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1977.
No tumultuado
cenário pós-ditadura militar de 1977, um período marcado por uma grande
repressão política, censura e limitações às liberdades civis, o Brasil
enfrentava instabilidade política, movimentos de resistência e o início de um
processo de abertura gradual, conhecido como "distensão", promovido
pelo governo militar, que culminaria na redemocratização do país nos anos 1980.
No cenário cultural, a literatura brasileira passava por uma fase de
questionamento e crítica à realidade social do país. Autores exploravam temas
como a marginalização, a desigualdade e a alienação, questões que refletiam as
tensões sociais e a exclusão das classes menos favorecidas. Sendo assim, a
escritora Clarice Lispector, vencedora do Prêmio Jabuti em 1961, trabalhava em
seu último romance, A Hora da Estrela. A obra, lançada em 1977, reflete
seu olhar sensível e crítico sobre os marginalizados, consolidando-se como um
marco em sua carreira literária.
Diante desse
cenário de repressão e exclusão, Clarice Lispector, com sua sensibilidade
singular, constrói uma narrativa que entrelaça uma linguagem aparentemente
simples com uma profunda reflexão filosófica. A Hora
da Estrela conta a história de Macabéa, uma jovem nordestina invisibilizada
pela sociedade, por meio da perspectiva onisciente e reflexiva do narrador
Rodrigo S. M. Mais do que apenas relatar os eventos de sua vida, o narrador
crítico expõe a condição de Macabéa como uma figura marginalizada, enquanto
também reflete sobre o próprio processo de narração, revelando o caráter
metalinguístico da obra. Macabéa, uma alagoana que migra para o Rio de Janeiro
buscando melhores oportunidades, vive à margem da sociedade, ocupando um
trabalho precário como datilógrafa, apesar de suas dificuldades com a escrita.
Morando em um pensionato e submetida a um relacionamento abusivo com Olímpico,
que a despreza e humilha constantemente, Macabéa não reconhece o abuso,
confundindo a violência com afeto. Sua trajetória culmina de forma trágica
quando, após uma consulta médica que revela sua doença, ela busca conforto em
uma cartomante que promete um futuro de esperança, mas o destino lhe reserva um
final cruel e irônico, confirmando sua posição de absoluta exclusão e
invisibilidade social.
Rodrigo S. M., ao
utilizar a metalinguagem narrativa na obra, constrói a história de Macabéa como
uma ficção deliberada, destacando o caráter inventivo de seu papel como
narrador. Ele admite não conhecer Macabéa pessoalmente, reconhecendo sua
condição de observador externo e alheio à vida da protagonista. A partir de um
simples vislumbre dela nas ruas, com sua aparência desorientada e o olhar
vazio, o narrador projeta sobre Macabéa uma existência imaginada, criando uma
narrativa que pode ou não refletir sua realidade. Nesse processo, a própria
estrutura do romance se revela ao leitor, tornando explícita a invenção
literária. Rodrigo S. M. constrói uma ficção sobre a ficção, questionando os
limites entre verdade e criação artística e refletindo sobre a própria
responsabilidade do narrador ao contar a história de alguém cuja vida ele
conhece apenas de forma superficial.
Essa exploração
sobre os limites entre ficção e realidade também é destacada por Maria Lúcia de
Barros Camargo Arêas, que vê A Hora da Estrela como o ponto culminante
da trajetória literária de Clarice Lispector, uma espécie de "narrativa do
limiar" que reflete a consciência da autora sobre sua própria mortalidade.
Segundo Arêas, o romance é um "salto mortal" que, tanto pelo título
quanto pela sua estrutura, dialoga de forma antitética com outras obras de
Lispector, como A Paixão Segundo G.H. e A Via Crucis do Corpo.
Neste pequeno, porém dilacerante romance, Arêas identifica os sinais mais
explícitos de uma voz que Lispector vinha buscando ao longo de sua carreira,
especialmente através dos diferentes narradores que, simbolicamente, funcionam
como projeções da própria escritora. Ao final de sua vida, A Hora da Estrela
revela uma Clarice profundamente reflexiva, cuja escrita tateia, com uma
intensidade final, as complexidades existenciais e humanas que marcaram sua
obra literária.
Assim, ao
sintetizar a complexidade de sua trajetória literária e refletir sobre sua
própria finitude, Clarice Lispector entrega com A Hora da Estrela uma
obra que marca um desfecho significativo em sua carreira. Em um Brasil em
transição política e marcado pela opressão, Lispector constrói uma narrativa
que, através da história de Macabéa, reflete a marginalização e a
invisibilidade das camadas mais vulneráveis da sociedade. A simplicidade
aparente da linguagem, combinada com a profundidade filosófica da obra, destaca
a habilidade de Lispector em explorar dilemas existenciais e sociais. A Hora
da Estrela encerra a carreira de Lispector de forma brilhante, reafirmando
sua relevância tanto no cenário literário quanto no social e consolidando-a
como uma das mais importantes escritoras da literatura brasileira.
[1]
Graduanda do segundo período
do curso de Letras Português pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL)


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